Amor próprio vs Egoísmo



 Quando nas nossas relações algo nos fere, é o nosso amor-próprio que se revolta com a injustiça ou a falta de respeito. Atacaram a nossa dignidade, fizeram-nos sentir menores. E isso é desconfortável e faz-nos reagir. 

Temos  sempre a impressão que as motivações que nascem de sensações desagradáveis não são boas, e as ações que pomos em movimento através delas acabam por magoar e romper qualquer coisa.

Este amor-próprio nasce do desejo de nos afirmarmos naquilo que somos, de termos uma palavra a dizer, de nos sentirmos úteis. E quando isto não acontece, quando não somos reconhecidos, surgem de novo feridas e reacções desagradáveis.

Pode haver um ponto de equilíbrio entre todas estas sensações. O amor-próprio está ligado a algo natural em nós, uma espécie de instinto de sobrevivência, para não desaparecer no mundo das relações. O grande segredo está no modo em como usamos esta nossa energia, em que somos felizes com aquilo que somos, temos e fazemos. No fundo como gostamos de nós e nos mostramos aos outros, como nos fazemos reconhecer e amar.

O egoísmo não é bom, o centro do mundo sou eu, e isso é uma fonte de tensão e desolação, porque simplemente a Vida e as suas circunstâncias, as minhas relações, não funcionam com interesses de ilhas isoladas, de querer controlar tudo e todos, mas segundo modos de comunicação e partilha, de ganhar e perder. Fico doente, os outros não fazem o que quero, o patrão não reconhece o meu valor, não tenho tempo para o que quero... e tudo isto estraga o meu mundo imaginário. Terei de viver o que sou de outra maneira.

A energia do amor-próprio deveria ser usada num dinamismo de humildade e simplicidade. Ser humilde não é apagar-se, mas é reconhecer a própria bondade e beleza, que é algo fundamental em cada um de nós e que nunca desaparece. E comunicar o que sou com simplicidade, com vontade de ser melhor e estar disponível.

Isto implica uma coragem gigantesca, que vive em perfeita harmonia com a humildade de saber que não posso dominar tudo, e a simplicidade de aceitar a Vida como oportunidade de me questionar e ver que coisas estou pronto para fazer. Este amor-próprio é extremamente criativo e corajoso, forte, e pode trazer muitos frutos àquilo que vivo com os outros.


Retirado de: Cidade Eterna. António Valério.

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